Sofia Dinger em residência no Forum Dança

Depois do que aconteceu, não posso continuar a falar exactamente da mesma forma que falava antes de tudo ter acontecido. Não posso e não quero. Quero marcar as diferenças: testemunhar que as coisas importam. Que, às vezes, ficamos mesmo sem saber o que fazer com a voz.
Até escrever isto me parece excessivo, como se cada palavra que escolho fosse, em si, uma traição. E a verdade é que entre o que agora escrevo e aquilo que virá a ser lido, tantos dias passarão que quando lá chegarmos (tu, eu, o morto, a santa, os fantasmas, a amiga e a mãe ), todos estaremos tão diferentes que talvez este pequeno texto seja, então, uma mentira. Não posso prometer o contrário. Sei que tenho ouvido muita música, porque me consola.
As minhas mãos cheiram a comida, não acho muito apropriado escrever-te com mãos que cheiram assim a pizza manhosa trazida, às pressas, numa motorizada.
Esta ideia de que não tens como lembrar-te de mim.
Hoje é dia de festa, faço anos e uma amiga da Macedónia ofereceu-me um imenso ramo de flores e um postal com um cão e um avião, o perfume dos lírios toma conta do quarto. Quando leres isto, aqui já não haverá perfume a lírios.

É apaziguador pensar que todas estas frases seriam bem diferentes se eu tivesse decidido atirar-me a isto com uma noite a menos, três horas depois. Ou antes de tu teres respirado mais 10000 fôlegos.Ou antes de ele ter morrido pela primeira vez. Ou no começo da Primavera, quando chega o primeiro pássaro ao jardim da Estrela. Ou na madrugada de uma noite louca de copos lá para os confins escuros da cidade. Ou durante um momento de delicadeza com um estranho, um momento em que te dizem: estranhamente, estou contigo. Ou logo logo a seguir a ter descoberto quem é, afinal, o assassino da Rosie. Ou enquanto estou mesmo mesmo a chegar a casa, até já se vê daqui. Ou durante aquele futuro beijo que me fará tonta, outra vez. Ou se se tivesse dado o caso de eu nascer a tempo de ver o Nijinsky suspenso no ar. Ou se se viesse a dar o caso de eu nascer num mundo em que já não existirão alguns dos bravos animais. Ou se, simplesmente, hoje não tivesse demorado tanto tempo a prender o cabelo com ganchos. Ou se não tivesse perdido um. Ou se os fios da marioneta fossem infinitos. Ou se uma canção, meu amor, nunca se esquecesse.

Todas estas frases seriam bem diferentes se eu não tivesse ido a Auschwitz no mês passado, estava tanto frio, bebi um leite achocolatado daquelas máquinas em que se pôem moedas, descobri que, por lá, uma banda tocava todos os dias mesmo à porta de entrada no momento em que os condenados chegavam. Ou se eu não tivesse ido à Palestina há mais de dois anos, estado quieta no meio de uma romaria em que todas as mulheres eram bonitas: sentia-se uma vitalidade e uma estranha forma de alegria enquanto dançavam, fiz uma amiga. Ou se eu não tivesse ouvido o Edward Said dizer que a música é dos poucos lugares em que podemos falar todos ao mesmo tempo, ou se na gravação do Requiem do Mozart que a Mónica ouvia em loop não fosse possível confundirem-se suspiros de maestro com apelos de fantasmas. Todas estas frases seriam bem diferentes se eu não me tivesse perguntado, finalmente, porque é que o Orfeu olhou para trás. Esta ideia de que não tens como lembrar-te dos versos do Rilke, aquele fundo de página pintalgado pelos meus desastres, entre gotas de café e migalhas de pão de deus : “De uma vez por todas, é Orfeu, quando algo canta.”

Hoje é dia de festa, caíram-me duas ou três lágrimas, trata-se de uma festa afinal, estou entediada que entendam mal as lágrimas e então decidi escrever um manifesto : chama-se “manifesto das lágrimas” e tem uma espécie de final feliz. Vou agora, há muito tempo, parar os dedos por aqui. Quando aí chegarmos será o dia da festa de alguém, é sempre assim, a tua ausência tão viva será sentida, meu amor, e, meu amor, estará um pouco mais pronta a minha canção para ouvir-te chegar.

Calendário do projeto
24-26 de maio 2018 – Estreia, Alkantara Festival, Lisboa
2 – 20 abril – Residência Artística, Fórum Dança, Lisboa
20 – 30 de março 2018 – Residência Artística, Teatro do Campo Alegre, Porto
23 fevereiro 2018 – Apresentação no Under Construction Festival – Gent, Bélgica
6 e 7 julho 2017 — Apresentação em contexto escolar Das Arts/Holanda – Amesterdão
19 a 24 de abril 2017 — ensaios e apresentação work in progress no Exodus Festival – Glej Theatre/Liubliana – Eslovénia
13 a 21 de janeiro 2017 – Residência Canadá/Montreal

Estreia nacional do projecto no âmbito do Alkantara Festival 2018, no Teatro Maria Matos (data a confirmar)

Conceito e performance Sofia Dinger
Cocriação Rimah Jabr
Colaboração artística Rodrigo Amado
Desenho de luz Daniel Worm
Uma canção para ouvir-te chegar, verso do poema podendo servir de posfácio, Mário Cesariny, 1981
Produção Alkantara
Coprodução Maria Matos Teatro Municipal
Residências artísticas Forum Dança, Teatro Municipal do Porto
Apoio DasArts

Com o apoio de 1Space/Programa Europa Criativa da União Europeia

Alkantara – A.C. é uma estrutura financiada por República Portuguesa | Cultura/Direcção-Geral das Artes e Câmara Municipal de Lisboa

foto: João Ferro Martins

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