Sofia Dinger – Gancho de Cabelo

Todas as manhãs (ou à hora em que acorde), practico o meu ritual de lavar o rosto com água bem fria, tentativa simultânea de efectivar o despertar e de retardar as marcas do tempo. Pelo que dizem, água fria é promessa de juventude. Logo a seguir e imediatamente, pego numa das espessas madeixas do meu cabelo encaracolado, ainda solto pela noite, e domestico-o. Mesmo ali, à mão de semear, um montinho de ganchos de cabelo disponíveis , prontos a restabelecerem a ordem e, assim, ajudarem-me ao reconhecimento, a manterem-me calma.
Decidi exilar-me. Ainda não estou completamente convicta de que o verbo “decidir” seja o mais apropriado, mas é o único que consigo. Fantasmas também fazem pessoas mudar de sítio. Sentirem-se obrigadas a isso. Conheci a Remah, exilada no outro lado do mundo. Ele é escritora e sabe escolher melhor as palavras . Confirmei, fantasmas também fazem pessoas mudar de sítio. Sentirem-se obrigadas a isso.
Li que “não sabemos nem queremos viver despedidas.” Li que Rilke “fala, angustiado, das pessoas que abandonou outrora, sem compreender como é que se podem abandonar pessoas.” Penso nos oitenta anos do meu pai e no tudo que ele sente que ainda tem para fazer. Penso no meu único amor que, até hoje e passados tantos dias separados, ainda coleciona todos os ganchos de cabelo que encontra enquanto caminha na rua de olhos postos no chão. Procura as suas noventa e nove mulheres. Penso nesta decisão que não tomei, mas que se consumou.
Forço o meu encontro com Edward Said, esforçando-me por perceber melhor o que vivi na Palestina, esforçando-me por aproximar-me da Remah. E de mim. Eu nem sei se a Remah alguma vez leu Edward Said. Talvez esteja tudo errado. Mas sei que o Edward e eu lemos “The heart of darkness” do Conrad . E eu fui mesmo ao Congo e subi parte do rio que o Conrad também subiu , há muito tempo atrás, e olhei para o lado esquerdo do meu peito e também vi lá uma luz escura a iluminar não sei bem o quê.
Relembro a personagem do Maupassant. O homem cuja relíquia era um gancho de cabelo que tinha enfeitado a cabeça da sua amada, a linda mulher que nunca mais vira e que vivia na Paris dos custosos penteados. O gancho de cabelo, a relíquia, com a qual essa mesma mulher lhe tinha tentado furar os olhos. E rio-me , porque percebo bem a facilidade com que minúsculos pertences se transformam em armas e como a beleza é obrigatoriamente violenta. E como de tanta paixão, os nossos preciosos corações se podem cansar.
E debato-me com este emaranhado precário de desejos nos quais confio, mas de que ainda não tenho a chave. Sei que, mais à frente, todas estas melenas cairão no seu lugar, arquitectado por débeis ganchinhos, torturantes ganchinhos, apaziguadores ganchinhos .Talvez necessários.
O meu pai disse-me, há pouco tempo: “Estou na vida preso por fios”. E eu respondo-te: “Estou aqui, presa entre ganchos.”

Calendário do projeto

6 e 7 Julho 2017 — Apresentação em contexto escolar Das Arts/Holanda – Amesterdão
19 a 24 de Abril 2017 — ensaios e apresentação work in progress no Exodus Festival – Glej Theatre/Liubliana – Eslovénia
13 a 21 de Janeiro 2017 – Residência Canadá/Montreal

Estreia nacional do projecto no âmbito do Alkantara Festival 2018, no Teatro Maria Matos (data a confirmar)

Conceito e interpretação Sofia Dinger
Co-criação Rimah Jabr
Produção Alkantara
Coprodução 1Space, Maria Matos Teatro Municipal
Apoio DasArts, Teatro Municipal do Porto
Parceiro Institucional República Portuguesa – Ministro da Cultura

Projeto apoiado no âmbito do 1SPACE/Programa Europa Criativa da UE

Alkantara – A.C. é uma estrutura financiada por República Portuguesa | Cultura/Direcção-Geral das Artes e Câmara Municipal de Lisboa

foto: João Ferro Martins

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