Sofia Dinger – Histórias de um amor

Espaço Alkantara
13 out às 21h00
14 out às 18h30
15 out às 19h15

entrada gratuita (lotação: 40 lugares)
levantamento de senha 30 minutos antes do início da sessão no local, no limite dos lugares disponíveis. Máximo 2 senhas por pessoa.

A 2ª edição da TRAÇA, a decorrer entre 13 e 15 de outubro de 2017, em vários espaços do bairro da Madragoa, é co-programada pelo Alkantara e dedicada ao encontro com as artes performativas. Seis artistas convidados produzem peças originais a partir da coleção de filmes de família do Arquivo Municipal de Lisboa – Videoteca, peças a apresentar em estreia absoluta em vários locais habitados pela comunidade do Bairro da Madragoa.
Os seis artistas envolvidos são Alex Cassal, Isabel Abreu, Raquel André, Sofia Dinger, Sofia Dias & Vítor Roriz e Silva Melo & Miguel Aguiar.
Sofia Dinger apresenta a peça Histórias de um amor, trabalhando o tempo, a memória, o amor e a perda nas relações humanas.

“Acabas agora de fazer oitenta e dois anos. És ainda bela, graciosa e desejável. Faz cinquenta e oito anos que vivemos juntos e amo-te mais do que nunca. Recentemente
reenamorei-me de ti uma vez mais e trago de novo em mim
um vazio devorador que só o teu corpo apertado contra o meu apazigua. à noite vejo por vezes a silhueta de um homem que segue um carro funerário, numa estrada vazia e numa paisagem deserta. Esse homem sou eu. O enterro é o teu. Não quero assistir à tua cremação; não quero receber um frasco com as tuas cinzas. Ouço
a voz de Kathleen Ferrier que canta: “ Die Welt ist leer; Ich will nicht leben mehr.” E acordo. Vigio a tua respiração, a minha mão aflora-te. Cada um de nós gostaria de não sobreviver à morte do outro. Muitas vezes dissemos um ao outro que, no caso impossível de termos uma segunda vida, quereríamos passá-la juntos.”
Assim terminou André Gorz a sua carta a D.
Leio-a junto a um rio de corrente verde, peixes que se multiplicam e aragem quente a passar entre os dedos dos pés.
Entro no rio, os peixes picam.
Vêm-me aos olhos imagens emprestadas, narrativas intransmissíveis, um pequeno pássaro que quase parte um ramo de árvore. E alguns aviões sincronizados. Vêm-me aos olhos a tua morte e a minha, vêm-me aos olhos como será ver-nos de fora, hoje a água está mais clara e o fundo próximo talvez ajude qualquer coisa a brilhar.
Vigio a minha respiração. Não há outra mão nem qualquer flor.
Projecto-me no “daqui a muitos anos”: como saberei, então, falar desta tarde, deste rio? O que sobreviverá desta carta em mim? Como não perder nunca esta aragem quente, o gancho do cabelo solta-se, esta vida apenas? Como acabar de fazer oitenta e dois anos? E as silhuetas dos homens? A tua morte? A tua morte?
Lembro-me de outra frase da carta que acabo de ler: “Para ti, que dando-me Tu, deste-me Eu.” Não sei se entendo. Mas acho tão bonito. Quero sabê-la de cor, não esquecer nunca. Repeti-la-ei até ao sol se pôr.
E, então, vem-me aos olhos o rosto comprido de uma grande amiga, tão terno, dizendo: “Partiu-se tudo, mas revelou-se um coração.”
E eu nunca hei-de receber um frasco com as tuas cinzas.

*Este texto não foi escrito ao abrigo do Acordo Ortográfico

Concepção e interpretação Sofia Dinger
Luz Daniel Worm
Agradecimentos Ana Dinger, António Duarte, Clara Dinger, João Ferro Martins, Gonçalo Alegria, Luísa Crick, Tiago Oliveira
Duração 25 minutos

Sofia Dinger frequenta o mestrado em teatro na escola Das Arts, em Amesterdão. Tem investido continuamente em formação adicional com pessoas como Rogério de Carvalho, João Fiadeiro, Carlota Lagido, Ângela Schanelec, Olga Mesa, Beatriz Batarda, Vera Mantero, Miguel Loureiro, Thomas Richards, Jonathan Burrows, Kassys… Sofia criou e interpretou Grande Ilusão (Temps d’Images, 2014), Nothing’s ever yours to keep (Maria Matos Teatro Municipal, 2011) e Noites Brancas (parceria com Paula Diogo e Mónica Calle para o Festival de Almada, 2013). Enquanto intérprete trabalhou com Mónica Calle, Blitz Theatre Group, Sara Carinhas, Rui Catalão, Teatro do Vestido, Francisco Salgado.. Em cinema, cruzou-se com realizadores como Leonardo Mouramateus, André Lage, Paulo Menezes e Pedro Filipe Marques. Recebeu o Prémio Bernardo Santareno, na categoria de atriz revelação (2011) e uma menção honrosa pela performance na curta-metragem Lullaby (André Lage), na 16ª edição do Festival de Cinema Luso Brasileiro de Santa Maria da Feira. Em 2013, integrou o laboratório Try Angle e em 2015, ingressou no 1Space,projecto entre Portugal, Congo, Palestina e África do Sul no qual conheceu Faustin Linyekula, Jozef Wouters , Tony Chakar.. São tantas as pessoas. Anda às voltas pelo mundo.
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